• Fabiola Aurich

A neurociência na criação de filhos

Neurociência é o assunto do momento. De uma hora pra outra, explodiu uma quantidade de neuro-isso e neuro-aquilo na internet, falando em como devemos gerir empresas, lidar com pessoas e educar filhos. Tudo baseado na neurociência. A parte de educar os filhos é o que me toca, principalmente porque tem embasamento científico. Nesse artigo, vou apresentar uma introdução do que seria usar a neurociência na criação de filhos com o cérebro integrado. Vem comigo!


O começo


Quase todo mundo já ouviu falar em Hipócrates ou no “juramento de Hipócrates”, feito pelos médicos quando se formam. Quem nunca ouviu falar desse nome, calma, já estou explicando. Hipócrates foi um médico e estudioso grego, nascido em cerca de 460 a.C e que ficou conhecido como o pai da medicina. Não à toa. Seu vasto conhecimento foi bem à frente de sua época. Hipócrates fundamentou sua prática na ciência e rejeitava quaisquer práticas ‘mágicas’ ou superstições no tratamento de seus pacientes. Se estivesse vivo nos dias de hoje, com certeza seria um incansável combatente das Fake News.


Pois bem. Naquela época, acreditava-se que quem comandava o corpo era o coração. O coração era o grande responsável por tudo que acontecia, de bom e de ruim, com a pessoa. O coração era, inclusive, responsável pelos sentimentos. E o cérebro? Servia pra dar problema.


Para se ter uma ideia, pacientes epiléticos ou com problemas mentais eram tratados por uma técnica chamada de trepanação – faziam pequenos orifícios no crânio do paciente para que os espíritos do mal conseguissem sair da sua cabeça e parassem de causar problemas. Se o paciente sobrevivesse a essa peneira cerebral, os espíritos foram expulsos com êxito.


Evidentemente, Hipócrates não acreditava em nada disso e desde aquela época ele já sugeria que o cérebro era um órgão importante e responsável por muito do que se sentia e acontecia dentro do corpo.


Exemplo de crânio encontrado por arqueólogos com sinais de trepanação / Crédito: Wikimedia Common


A ascensão


Desde Hipócrates o cérebro vem sido estudado com um olhar diferente. Porém, foi na década de 90 que ele ganhou notoriedade e virou o Astro Rei. Com o advento de exames como a tomografia computadorizada, a ressonância magnética e da ressonância magnética funcional, conseguimos ver o cérebro em funcionamento e muita coisa passou a ser melhor entendida a partir daí.


Neurociência e um cérebro integrado


Hoje sabemos muito mais sobre como o cérebro funciona e o que podemos fazer para que ele se desenvolva de maneira saudável. Uma das mais novas e fascinantes descobertas da neurociência é que o cérebro é “plástico” ou moldável. Isso significa que ele muda sua estrutura física ao longo da vida. Essa plasticidade cerebral é maior durante a infância, mas ela acontece ao longo de toda a vida da pessoa.


E o que molda nosso cérebro? Experiência! Acontece assim: quando passamos por algum acontecimento – a experiência – nossas células cerebrais (neurônios) são ativadas, ou “disparam”. Quando neurônios disparam juntos, criam conexões entre eles e a maneira como isso acontece determina a natureza da nossa atividade mental, ou seja, como percebemos o mundo. Ao longo do tempo, essas conexões podem se tornar fortes (se a experiência for mantida) ou fracas, e esses neurônios se reconectam de outra maneira, no caso de novas experiências.


Neste exato momento, o cérebro de seu filho está sendo constantemente programado e reprogramado pelas experiências que ele tem todos os dias. Estudos apontam que existe uma influência genética na arquitetura básica do cérebro e que influencia no temperamento individual da criança. Entretanto, os pais têm muito a fazer para oferecer os tipos de experiência adequados para criar filhos com um cérebro integrado e resiliente.


E qual a importância disso na criação de filhos?



Crianças cujos pais conversam com elas sobre suas experiências tendem a ter uma melhor recordação sobre o que aconteceu. Do mesmo modo, pais que falam com os filhos sobre os seus sentimentos desenvolvem inteligência emocional e possibilitam que a criança compreenda melhor os próprios sentimentos e os sentimentos das outras pessoas. Crianças tímidas cujos pais incentivam sentimentos de coragem, proporcionando experiências desafiadoras tendem a perder a inibição frente à certas situações. No entanto, aquelas que são excessivamente protegidas ou que passam por situações de ansiedade sem a devida atenção tendem a manter retração e a timidez.


Isso tudo quer dizer que, se seu filho fica muito tempo na frente de uma tela, seja no computador, televisão, celular ou jogos, seu cérebro será moldado de determinada maneira. Conforme oferecemos atividades lúdicas, brincadeiras, esporte e música, outros tipos de conexão cerebral serão programados. Interações familiares, com amigos e formas de relacionamento e interação presencial geram outros tipos de conexão. Dessa forma, tudo o que nos acontece afeta a forma como nosso cérebro é desenvolvido e moldado.


Um cérebro bem desenvolvido resulta em tomada de decisão mais assertiva, melhor controle do corpo e das emoções, autoconhecimento, relacionamentos mais fortes e melhor capacidade de aprendizado. Portanto, quando desenvolvemos essas habilidades desde cedo, na infância, a vida adulta fica muito mais leve.


Como pais, ter o conhecimento sobre como funciona esse cérebro em desenvolvimento e saber como programar e reprogramar as conexões, oferecendo experiências enriquecedoras, faz parte do trabalho diário de criação dos filhos.


Como integrar o cérebro?




Bem, nosso cérebro tem muitas partes diferentes, cada qual com uma função. Por exemplo, o lado direito é responsável pelas emoções enquanto o lado esquerdo é mais lógico e analítico. Temos ainda um cérebro ‘reptiliano’, que responde pelos nossos instintos. Um cérebro ‘mamífero’ ou límbico, que é responsável pelos sentimentos. Uma parte do cérebro dedicada à memória, outra a tomar decisões, aprender e raciocinar. É como se tivéssemos várias personalidades juntas no mesmo lugar – uma ponderada, outra reativa, uma racional, outra sensitiva… Imagina só a bagunça!


Quando essas diversas partes do cérebro trabalham juntas, em harmonia, dizemos que o cérebro está integrado. Em outras palavras, cada parte precisa executar bem sua tarefa individual ao mesmo tempo em que todos trabalham juntos como uma equipe. Por exemplo, precisamos que o cérebro seja horizontalmente integrado, para que a lógica do cérebro esquerdo funcione bem com a emoção do cérebro direito. Integramos esses dois lados do cérebro com… experiências!


É relativamente fácil perceber quando uma criança não está com o cérebro integrado – elas ficam confusas, retraídas ou agitadas. Têm ataques de fúria e birra. O cérebro límbico não está em conexão com o cérebro analítico, representado pelo córtex pré-frontal, ainda não totalmente desenvolvido nas crianças. A maioria dos desafios encontrados pelos pais na criação dos filhos são resultado dessa desintegração. Ajudá-los a integrar, embora não seja nada difícil, requer de nós, pais, mães e cuidadores, uma atenção especial ao modo como criamos as crianças e proporcionamos as experiências que eles precisam para se tornarem adultos emocionalmente saudáveis.

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