A ciência do brincar

Segunda e quarta é dia de natação. Terça e quinta tem aula de piano e consulta com o psicopedagogo. O dever de casa, que cada dia que passa aumenta de tamanho e dificuldade (Senhorrr!) leva quase 2 horas por dia. Na escola, 90% do tempo a criança está sentada, aprendendo a demonstrar bom desempenho em testes padronizados ou se informando sobre assuntos que, convenhamos, não são de interesse algum para aquela criaturinha que, inegavelmente, tem toda uma energia estocada para brincar, explorar o mundo e fazer networking (a tal “conversa paralela”).


Então chega o tão esperado final de semana! Enfim, os pais vão permitir que fiquem um pouco mais no celular ou no tablet – ao final de contas, durante a semana nada de celular, não é mesmo? Aí se vão horas no TikTok, Youtube, joguinhos… E a saga recomeça na segunda-feira.


Relembrando nossa infância


Agora, vamos voltar no tempo e relembrar da nossa época, enquanto crianças. Como usávamos o nosso tempo livre? Como eu morei muito tempo em apartamento, eu descia para brincar. Acho que a frase que meus pais mais ouviram de mim em toda infância foi: “Já fiz o dever, agora posso descer pra brincar?” E lá se iam horas de piques (pique-esconde, pique-alto, pique-pega…), pular elástico, amarelinha, queimada, andar de bicicleta e brincar de viagem, adedonha e mais quase uma centena de brincadeiras que, se não existisse, com toda a certeza a gente inventava. Enfim, faça uma pausa na leitura. Feche os olhos por um minuto e relembre sua infância. Se foi cheia de brincadeiras, qual a sensação essas lembranças te dão? Como você se sente? É bom, não é?


Eu sei, o mundo está diferente e não tem como voltar atrás. Aliás, nem deve, pois evoluir é preciso e as mudanças que ocorrem em nossa sociedade são necessárias e benéficas. A tecnologia veio pra ficar e não tem como correr dela. O problema aparece quando a criança começa a não ter mais tempo para fazer justamente o que seria essencial para o seu melhor desenvolvimento – brincar.



Brincadeiras e ciência


O ato de brincar é tão importante para o desenvolvimento infantil que vem sendo estudado há décadas pelas mais conceituadas instituições mundo afora.


Jaak Panksepp (1943-2017) foi um neurocientista estoniano-estadunidense que ficou célebre por seus estudos sobre as emoções básicas em mamíferos. Ele ficou conhecido por criar o termo “neurociência afetiva” – o ramo da neurociência que estuda os mecanismos neurais da emoção. Em pesquisa com ratos, ele descobriu que, mesmo as partes mais evoluídas do cérebro desses animais, o córtex superior, não funcionem bem, o rato poderá ter suas funções cognitivas, como memória e aprendizado, afetadas, mas ele continuará sabendo brincar. Essa descoberta indica que, mesmo em mamíferos primitivos, a necessidade de brincar está tão arraigada que envolve estruturas subcorticais do cérebro, ou subconsciente. Essa parte do cérebro, por exemplo, é responsável por processar nossas reações instintivas e de sobrevivência.


Outro estudo foi realizado pelo Dr. Stuart Brown, psiquiatra e fundador do National Institute for Play. Ele avaliou o comportamento de assassinos no corredor da morte e descobriu duas características em comum sobre a infância desses criminosos: eles sofreram alguma forma de abuso e foram privados de brincar. Segundo o pesquisador, brincar é uma necessidade biológica básica para a sobrevivência dos animais e dos seres humanos por toda a vida.




Estudos como esses indicam a importância de não sobrecarregarmos nossas crianças com atividades extracurriculares como aulas de inglês, piano, judô etc. Devemos sim, acima de tudo, reconhecer a necessidade da criança de ter tempo no dia a dia para brincar livremente e ser o que ela realmente é: uma criança. Ter tempo para brincar liberta a criança para usar sua imaginação, bem como experimentar sua interação com outras crianças sem julgamentos, explorar o desconhecido e descobrir seus limites.


Liberdade


Observem que estou falando aqui de brincar livremente, ou seja, oferecer à criança liberdade para criar e imaginar. Isso cria conexões cerebrais distintas de brincadeiras, digamos, direcionadas por adultos. Jogos com regras pré-estabelecidas e os brinquedos “pedagógicos” têm o seu papel, mas geralmente implicam em uma avaliação de certo e errado, de rótulos e normas e não de liberdade de criação. Deixar a criança livre significa que, às vezes, o triciclo pode virar uma pipoqueira, uma caixa de papelão pode se transformar em uma espaçonave, o papel higiênico te transforma em múmia (quem nunca?) e uma beringela pode ser a Senhora Beri, síndica do condomínio dos vegetais.


Segundo o Dr. Daniel Siegel, professor de psiquiatria da UCLA, o simples ato de brincar oferece às crianças inúmeros benefícios, tanto cognitivos quanto não cognitivos. Melhora a linguagem e a capacidade de resolver problemas, assim como outras funções executivas avançadas, como planejar, prever, antecipar consequências e preparar-se para surpresas. Elas aprendem negociação, lealdade, esperar a vez, ser resiliente e ter empatia. Tudo porque têm a liberdade para brincar.



 

Brincar é o trabalho das crianças.

 

De fato, o tempo que a criança passa brincando é tão (se não mais) importante que o tempo que ela passa estudando. É um dever tanto dos pais quanto das escolas proporcionar espaço, incentivo e liberdade para a brincadeira. E estudos que comprovam isso, como acabei de mostrar aqui, não faltam!