A Filosofia da Poda Neural

Tem dias que acordamos mais reflexivos, questionando questões da vida, fazendo perguntas estranhas… hoje foi meu dia. E justamente enquanto estudava os processos moleculares da poda neural. Enquanto estudava, foi passando na minha cabeça sussurros de Platão, Buda, Clarice Lispector e até Tiririca (dá um Google em Tiririca filósofo, está lá). Bem, uma bagunça.


Como eu sei que a linguagem e a escrita ajudam a organizar os pensamentos, o artigo de hoje será sobre minha aterrisagem. Vamos aprender um pouco sobre poda neural sim, mas como é um processo tão apaixonante, não tem como não filosofar sobre ele.


Para começar, apresento um neurônio:

Desenho de um neurônio

Parece um animal marinho, mas é a principal célula do sistema nervoso e responsável pela maioria de suas funções. São os neurônios que sentem as mudanças do ambiente, passam essas informações para outros neurônios e comandam o que o corpo vai fazer com essas informações.


O neurônio possui 3 componentes importantes: o corpo celular, uma fibra principal de saída, o axônio, e fibras de entrada, os denditros.


Funciona mais ou menos assim: quando um neurônio recebe um estímulo e se torna ativo (na neurociência isso é conhecido como “disparo), ele propaga uma corrente elétrica que passa pelo corpo celular e continua ao longo do axônio até chegar na sinapse — ponto onde os axônios estabelecem contato com os denditros de outro neurônio.


Na sinapse, esse neurônio libera substâncias químicas — os neurotransmissores — que vão “disparar” o neurônio seguinte e assim sucessivamente.


Um cérebro adulto tem cerca de 85 bilhões de neurônios. Cada um estabelece, em média, cerca de mil sinapses. Tem neurônios que fazem até 6 mil sinapses. São trilhões de sinapses! Para se ter uma ideia, nosso cérebro tem mais conexões que o número de estrelas em nossa galáxia. Você guarda uma galáxia dentro da cabeça.



Imagina a complexidade disso! E ainda tem gente que acredita que repetir frases na frente do espelho vai conseguir “reprogramar” o cérebro e mudar suas “crenças limitantes” e seu modo de ser. É bem mais complicado.


Platão já dizia…


Há cerca de dois mil e quatrocentos anos atrás, Platão tentava explicar a origem do Universo. Segundo ele, cada ser foi feito de maneira a harmonizar e complementar o TODO. A fim de criar um Universo o mais belo e perfeito possível, a Divindade deu proporção e simetria a tudo que fosse visível e o fez uno com o Universo. Sim Platão, somos bem parecidos com o Universo.


Voltando à poda neural


Bem, se você acha que tem neurônio para encher uma galáxia, saiba que você já teve muito mais. O bebê nasce com muito mais neurônios que esses 85 bilhões. Estima-se cerca 100 bilhões de neurônios. Na primeira infância, principalmente nos primeiros dois anos de vida, esses neurônios estão em plena atividade sináptica (mais que o dobro de um adulto), fazendo muitas conexões e em alta velocidade. Não é à toa: é um mundo novo, cheio de sensações e novidades para desbravar.


Só que lá por volta dos 3, 4 anos de idade, ocorre uma perda significativa de muitos desses neurônios e sinapses. É o que chamamos de poda neural. A criança vai ficando mais burra? Não. O cérebro dela vai se tronando mais específico.


Um aprendizado ocorre quando um grupo de neurônios disparam juntos. Assim são formados os circuitos neurais. Essas conexões entre eles se tornam fortalecidas de acordo com a experiência: quanto mais a experiência se repete ou quanto maior a carga emocional dessa experiência, mais fortes serão essas conexões. Ao contrário, experiências pouco relevantes geram conexões fracas. Essa maravilha se chama neuroplasticidade.


Exames de imagem feitos em violinistas, por exemplo, mostram crescimento em regiões cerebrais do córtex responsável pela motricidade da mão esquerda, que precisa dedilhar as cordas com precisão e velocidade. O mesmo acontece com os taxistas, que possuem a área do hipocampo, responsável pela memória espacial, maior que de pessoas que não dirigem tanto.


Bem, e por que, durante a poda neural, esses neurônios precisam morrer? Porque é necessário espaço para que as conexões que são significativas cresçam.


Como dizia Cecília Meireles:

“Aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira.”

E é exatamente sobre isso. Cortar as conexões fracas para que as conexões fortes tenham melhores condições para crescer. Neurônios precisam morrer, para que os que vão sobreviver tenham espaço para expandir os seus prolongamentos e crescer. E assim o cérebro da criança vai ficando mais específico e evoluído.


Na medida em que a criança vai recebendo os estímulos e aprendendo novas habilidades, os neurônios passam a reconhecer quais as conexões estão sendo mais utilizadas e vão reforçando essas conexões. Quanto mais a criança vivencia determinada experiência e estímulo em frequência e intensidade, mais forte as conexões ficam. Aqueles neurônios ou conexões que não estão sendo utilizados ou aquelas conexões que não foram fortalecidas, serão eliminadas.


Na verdade, essa poda neural acontece durante toda a vida, começando intraútero. Porém, existem períodos no nosso desenvolvimento em que ela é mais ativa, como na primeira infância e na adolescência.


Após a poda da primeira infância, ocorre uma nova superprodução de neurônios e suas conexões e esse crescimento continua até cerca de 11 anos nas meninas e 12 anos e meio nos meninos. A partir daí, o processo mais intenso de poda dos neurônios volta a acontecer. Portanto, as experiências e aprendizados ocorridos durante a adolescência são muito importantes na construção do indivíduo adulto.


Tiririca filósofo. Não disse?

Algumas doenças neurológicas importantes estão associadas a essas podas, como o autismo na poda da primeira infância e a esquizofrenia na poda da adolescência.


Esses períodos mais intensos de poda são muito importantes para o desenvolvimento. Sem eles, nosso cérebro não evolui. Pensando nisso e trazendo os ensinamentos das Neurociências para a vida, as perdas muitas vezes se fazem necessárias também para nossa evolução. Como dizia Buda, “Em nossas vidas, a mudança é inevitável. A perda é inevitável. A felicidade reside na nossa adaptabilidade em sobreviver a tudo de ruim.”


As dificuldades que temos na vida, os enfrentamentos, as frustrações, enfim, as perdas, são essenciais para o nosso amadurecimento. É através delas que, assim como nossas conexões cerebrais, ficamos mais fortes e preparados para a vida. Uma vida sem perdas gera um adulto fraco, sem capacidade para evoluir.


Te sugiro olhar para as suas perdas de uma maneira diferente a partir de agora. O que elas podem te ensinar? O que você precisa melhorar em você para se adaptar a essas perdas? E mais. O que você precisa eliminar da sua vida, para que você evolua? Quais são os neurônios que você precisa eliminar para que sua vida tenha conexões mais fortes e floresça?