• Fabiola Aurich

Afinal, existe livre arbítrio?




O comportamento humano é uma das coisas mais intrigantes que conheço. Você já parou para pensar por que as pessoas fazem o que fazem? O que leva um grupo de pessoas a cometer atrocidades como as da Segunda Guerra ou as de Ruanda? Em um instante a pessoa é o dono da padaria e, no outro, um inimigo mortal. Quem decidiu isso? Será que somos donos dos nossos pensamentos? Afinal, existe livre arbítrio?


Para o psicólogo norte-americano Burrhus Frederic Skinner, um dos maiores estudiosos do comportamento humano, não. Ao menos não da maneira como imaginamos.


Skinner foi o pai do Behaviorismo radical e criador do conceito de Comportamento Operante. Segundo ele, as ações de um indivíduo são definidas pelas consequências das ações passadas e pela interação desse indivíduo com o ambiente em que ele vive.


Segue o raciocínio:


Existem certos comportamentos humanos que são inatos. São comportamentos que foram necessários para nossa sobrevivência e perpetuação da espécie. Um exemplo é quando você encosta a mão em uma panela quente. Você tem o reflexo instantâneo de tirar, você não decide. Em um passado muito distante, um ancestral nosso precisou de uma resposta rápida frente a essa agressão. Aqueles que não tinham essa resposta, possivelmente queimavam a mão e morriam. E assim, evolutivamente, adquirimos esse comportamento. Desse modo, adquirimos uma série de comportamentos como o espirro, o fechar os olhos na poeira, a sucção do bebê... Todos eles foram necessários para a evolução da espécie e foram replicados geneticamente. Esse é considerado o primeiro nível de seleção – a seleção filogenética.


Por outro lado, existem comportamentos que são aprendidos e modulados em resposta ao ambiente que vivemos. Andar, por exemplo. São comportamentos condicionados. Não são herdados e são perpetuados via neuroplasticidade – você aprende. É o segundo nível de seleção – a ontogenética. A seleção ontogenética seria o repertório particular de cada indivíduo, o qual é determinado por sua história de vida ou histórico de reforço. Aqueles comportamentos que geraram algum reforço positivo foram mantidos e perpetuados, enquanto comportamentos que geraram punição, não.


O terceiro nível de seleção é a seleção cultural. São comportamentos modulados pela cultura e geralmente aparecem para resolver algum tipo de problema na sociedade. São repertórios de comportamentos compartilhados por pessoas da mesma sociedade. Segundo Skinner, a seleção mais importante ao se estudar o comportamento de todos os animais sociais.


“Seja inato ou adquirido, o comportamento é selecionado por suas consequências.” Skinner, 1983.

Vamos para exemplos práticos:


Se o comportamento de uma pessoa é modulado pelo seu histórico de vida e aprendizado, o que faz ela tomar certas decisões é o que ela aprendeu até agora e o ambiente em que ela vive, certo? Então aquela pessoa que viveu um relacionamento abusivo no passado, tende a fazer escolhas de novos parceiros baseadas na sua vivência. Seu aprendizado passado que determina suas escolhas presentes.


Um forte perpetuador de comportamento é o reforço positivo gerado pela aceitação social. Talvez a resposta para minhas perguntas no primeiro parágrafo.


Um jovem que pratica bullying na escola pode perpetuar esse comportamento, caso ele tenha sido reforçado. No caso, o reforço pela aceitação social quando os outros colegas acham graça do acontecido.


Um homem que conta piadas de cunho pejorativo ou racista em um ambiente de amigos que riem disso, tende a continuar com esse comportamento e achar isso “normal”. Esse mesmo homem, caso frequentasse um ambiente de amigos que repudiam esse tipo de piada, nunca abriria a boca para falar nada nesse sentido.


Então quem definiu as atitudes dessas pessoas? O AMBIENTE.


Me diga uma coisa: você aplica Botox porque você realmente gosta de levar injeção na testa e ficar com a testa lisa ou porque existe todo um aparato social (influenciado por pessoas que querem levar alguma vantagem financeira) que diz que, para ser bonito e socialmente aceito, você tem que ter a testa lisa e sem rugas? Será que a decisão foi realmente sua?


Você bebe um vinho de 600 reais porque realmente é muito, muito saboroso e TE faz bem ou por fazer parte de certo grupo de pessoas que veem valor social em rótulos caros?


Por que você come a sobremesa depois da janta? (eu nem sempre faço isso, sou gulosa com doces!)


Então, caros amigos, podemos não ter tanta liberdade assim. Podemos ter algum grau de liberdade quando temos consciência dos nossos porquês. Também quando temos consciência das consequências das nossas escolhas. Acabo aqui com uma das frases mais sensacionais de Skinner:


“Somos livres na medida que sabemos o que nos controla.”







Quer ler o icônico artigo de Skinner?

Fonte:

Skinner BF. Selection by consequences. Science. 1981 Jul 31;213(4507):501-4. doi: 10.1126/science.7244649. PMID: 7244649.

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