As mentiras que contamos – e a importância da honestidade em nossa vida.




Pinóquio é um personagem criado pelo italiano Carlo Collodi, que serviu de inspiração para a Disney em seu filme homônimo, cheio de simbologias e valores morais.


O desenho foi lançado em 1940, em plena Segunda Guerra Mundial, uma época em que o ser humano mostrou o que ele tem de pior. O filme tem várias lições de moral, como a importância do trabalho, da lealdade e da coragem, mas o boneco de madeira que queria ser criança acabou virando símbolo da mentira. O fato do nariz do Pinóquio crescer a cada mentira que ele contava é que ficou marcado em nossa memória. Caso ele continuasse contando mentiras, ele não seria um “menino bom” e não viraria uma criança de verdade.


Nossa geração cresceu com a lição de Pinóquio, de que mentir não é legal. Mas mentimos. Ah se mentimos!


Na verdade, a mentira é inerente ao ser humano e pode ser graças a ela que nossa espécie sobreviveu. Nós, os Homo sapiens (homem sábio), que de sapiens estamos perdendo muita coisa, evoluímos graças à nossa habilidade social. Mais especificamente graças à nossa habilidade de inventar coisas que não existem.


De fato, a nossa linguagem é única e a mais versátil dentre os seres vivos. Porém, segundo o historiador Yuval Harari, para além de avisar quando um leão estava se aproximando, a nossa capacidade de inventar seres, situações e coisas que não existem – o que os estudiosos chamam de realidade imaginada ou ficção – que foi a responsável pela união de grandes grupos e tornar os tais sapiens soberanos. Ao menos é assim que a gente se acha.


“Um grande número de estranhos podem cooperar de maneira eficaz se acreditar nos mesmos mitos.”

Embora Harari afirme que a mentira é diferente da realidade imaginada, eu a vejo como um braço sacana da ficção.


Mas será que essa capacidade de inventar e enganar, que foi útil a 70 mil anos atrás, continua sendo útil nos dias de hoje?


Pesquisas indicam que em média, um adulto mente de 0,59 a 1,56 vezes ao dia. Começamos a mentir cedo, a partir dos 2 anos, ou seja, basta saber falar. Essa mentira começa a diminuir dos 3 aos 14 anos, à medida que a pessoa vai adquirindo empatia, e quando chega na idade adulta, adquire um nível “normal”. Alguns não.


Geralmente, quem tem o hábito de mentir para os outros, mente também para si mesmo. Esse fenômeno é chamado de negação. Na negação, ocorre uma desconexão entre as partes do cérebro que mediam o circuito de recompensa e a parte cortical mais superior, responsável pela análise, consequências futuras e planejamento. O desejo de obter uma recompensa imediata (com a mentira) supera a racionalização do ato. É o já conhecido mecanismo do vício.


O psicanalista Donald Winnicott cunhou o termo “falso self” para quando o indivíduo inventa uma personalidade que não é dele, em defesa às exigências e estressores sociais. Isso foi em 1960. Nos dias de hoje, basta abrir as redes sociais, que Winnicott ficaria orgulhoso de suas observações clínicas.


Mas para quem acha que mentir é sinal de esperteza ou vantagem, a neurociência prova o contrário.


As vantagens da honestidade


O pesquisador Christian C Ruff, do Departamento de Psicologia da Universidade de Harvard e sua equipe, avaliaram os mecanismos neurobiológicos da honestidade e identificaram áreas no cérebro que, quando estimuladas por uma corrente elétrica, diminuíam pela metade a quantidade de mentira dos participantes. Adivinha que região foi essa? O córtex pré-frontal dorsolateral. Uma região envolvida na tomada de decisões, regulação emocional, controle dos impulsos e muitos outros processos complexos.


Mas, se o estímulo dessa região diminui a mentira, será que contar a verdade estimula o córtex pré-frontal? Embora essa relação causal ainda não tenha sido comprovada, o autor sugere que sim. A honestidade poderia reforçar circuitos neurais responsáveis por processos mentais importantes.


Ou seja, ser honesto pode te deixar mais inteligente.


A honestidade aumenta a conscientização sobre nossa própria narrativa, cria relacionamentos mais verdadeiros e satisfatórios e nos torna responsáveis pela nossa vida. Fora que o esforço cognitivo de manter uma mentira é imenso, roubando energia e atenção que poderia ser gasta em outras coisas mais produtivas.


Honestidade e parentalidade


Um tipo de mentira comum no núcleo familiar é quando os pais escondem dos filhos suas angústias, seus erros e imperfeições. Os pais pensam que ao mostrar o lado bom e correto deles, estão ensinando aos filhos a serem assim também. De certa forma, agir corretamente é melhor sim, pois a criança aprende por imitação. Mas na realidade, não acertamos sempre. Erramos também. Bastante.


O que acontece é que esconder os próprios erros pode surtir o efeito oposto e mostrar à criança que ela precisa ser perfeita para ser amada. Se formos honestos conosco e com nossos filhos sobre nossas angústias, medos e erros, damos espaço para que eles possam ser honestos com eles também e se permitirem sentir angústia, medo e a errar. Tenho certeza de que vamos poupar anos de terapia e análise dos nossos filhos no futuro.


Precisamos aceitar nossas falhas, nos desculpar quando necessário, admitir o erro e criar interações verdadeiras. Uma vida lúcida é muito mais leve e fácil de levar.





Referência:

Maréchal MA, Cohn A, Ugazio G, Ruff CC. Increasing honesty in humans with noninvasive brain stimulation. Proc Natl Acad Sci U S A. 2017 Apr 25;114(17):4360-4364.