• Fabiola Aurich

Comunicação não violenta

A comunicação não violenta, ou CNV, é um método de comunicação criado pelo psicólogo Marshal Rosenberg e serve como guia para resolução de conflitos em mais de 65 países ao redor do mundo.


O Dr. Rosenberg foi responsável por promover reconciliação e levar programas de paz em áreas devastadas por guerras como Servia, Croácia e Ruanda.


Sendo judeu e tendo passado sua infância em Detroit, em uma época em que enfrentavam uma crise de conflitos raciais, Dr. Rosenberg sentiu na pele a violência. Assim, durante a maior parte de sua vida, ele se preocupou com duas questões: por que nos desligamos de nossa natureza compassiva e nos comportamos de maneira violenta e como algumas pessoas conseguem se manter compassivas mesmo nas circunstâncias mais adversas?


A CNV não tem nada de inovador. Afinal, tudo o que foi integrado a ela já era conhecido há séculos. O objetivo é nos lembrar do que já sabemos – de como devemos nos relacionar como humanos.


Nesse artigo, darei um passeio pela comunicação não violenta de modo que você certamente possa se familiarizar com alguns conceitos e tenha uma noção de quanto nossa comunicação e relacionamento podem ser melhorados usando uma técnica simples.



Aplicando a Comunicação não violenta em nossa vida


Algumas pessoas usam a CNV para agir compassivamente consigo mesmas. Outras, para melhorar suas relações pessoais. Enfim, muitas pessoas a usam para gerar relacionamentos eficazes no trabalho ou na política.


Mas veja bem: a CNV não é uma técnica usada para manipulação e persuasão e sim de conexão com o outro. Os conflitos são resolvidos à medida que ambas as partes conseguem se fazer entendidas e atendidas.


Ela nos ajuda a repensar a maneira pela qual nos expressamos e escutamos os outros, mediante concentração em quatro áreas:

– o que observamos;

– o que sentimos;

– do que necessitamos;

– o que pedimos para enriquecer nossa vida.


Vamos analisar cada uma delas.


O que observamos


Temos tendência a analisar e julgar as pessoas com base em nossa própria percepção de certo e errado. São os chamados “julgamentos moralizadores”. Em outras palavras, isso implica que aqueles que não agem em consonância com nossos valores estão errados ou são maus.


Também tendemos a avaliar as atitudes das pessoas e a rotulá-las com base em comportamentos específicos. Quem nunca chamou o filho de preguiçoso porque ele não consegue acordar cedo? Ou bagunceiro pois ele não arrumou o quarto naquele final de semana?


Quando avaliamos, ao invés de simplesmente observar, as pessoas tendem a receber isso como crítica, e resistem ao que dizemos. No entanto, a comunicação não violenta é uma linguagem dinâmica, que desestimula generalizações. Por isso, as observações devem ser feitas de um modo específico, para um tempo e contexto determinado.


Vamos de exemplo?


Avaliação: “Você nunca faz o que eu peço!”

Observação: “Nas últimas vezes em que fui lavar a louça e te pedi ajuda, você não quis me ajudar.”


Avaliação: “João é péssimo em matemática.”

Observação: “Nas três últimas provas de matemática, João tirou notas bem abaixo da média.”


Avaliação: “Maria trabalha demais!”

Observação: “Maria passou mais de cinquenta horas no escritório essa semana.”


Percebeu a diferença?


O que sentimos


O segundo componente da comunicação não violenta é saber expressar como nos sentimos.


Nosso repertório de palavras para rotular os outros costuma ser maior que o vocabulário que usamos para descrever nossos sentimentos. Saber nomear e identificar de forma clara e específica nossas emoções tem o poder de melhorar nossa conexão com o outro.


Ao contrário do que se pensa, ao nos permitir sermos vulneráveis, ajudamos a resolver conflitos pois nos aproximamos humanamente do outro, mantendo-o mais receptivo ao que temos a dizer.


Para que consigamos nos expressar corretamente, a princípio temos que aprender a distinguir pensamentos de sentimentos.


Uma confusão comum gerada por nossa linguagem é usar o verbo sentir sem na verdade expressar o que realmente se sente. Por exemplo, na frase: “Sinto que nossa relação está abalada.” A palavra sinto poderia ser substituída por penso, creio ou acho. Não descreve o que a pessoa realmente está sentindo. Uma maneira clara e específica de se expressar nessa situação seria: “Estou preocupada com a maneira como estamos nos relacionando.” Ou: “Me sinto triste com o rumo do nosso relacionamento.”


Do mesmo modo, precisamos aprender a distinguir o que é nosso sentimento do que como achamos que os outros reagem a nosso respeito. Pareceu confuso? Vou explicar.

Algumas palavras tendem a expressar como interpretamos alguém, e não como verdadeiramente sentimos. Palavras como insignificante, ignorado, coagido e incompreendido tem mais a ver com o outro (na verdade, o que supomos do outro) do que com seu real sentimento.


Exemplo:


“Sinto-me ignorada por você.” Na verdade, o que você pode estar sentindo é tristeza, mágoa ou abandono pela pessoa não estar atendendo alguma necessidade sua.

“Sinto-me incompreendida pela minha equipe.” Isso indica o nível de compreensão de outra pessoa, ao invés de um sentimento real. Nessa situação, você pode estar se sentindo ansioso pois parece que sua equipe não está te entendendo.


Entendeu? Separe o seu sentimento de palavras que descrevem pensamentos, avaliações e interpretações.


Do que necessitamos


No terceiro componente da comunicação não violenta, aprendemos a reconhecer a raiz dos nossos sentimentos. Assumimos a responsabilidade pelo que sentimos e temos a consciência de que o que os outros fazem pode até ser o estímulo, mas nunca a causa dos nossos sentimentos.


Quando alguém nos dá uma mensagem negativa, por exemplo: “Você é uma mãe muito egoísta.”, temos quatro opções de reação:

  1. Culpar a nós mesmos: “Nossa, eu não deveria ter feito isso.”

  2. Culpar os outros: “Você está exagerando! Deixe de ser dramático.”

  3. Escutar nossos sentimentos e necessidades: “Quando você me diz isso, me sinto magoada, pois preciso do seu reconhecimento.”

  4. Escutar os sentimentos e necessidades dos outros: “Você está se sentindo magoado porque precisa de mais atenção da minha parte?”

A CNV nos estimula a identificar qual desejo, necessidade ou expectativa, nossa e do outro, não foram atendidas. Quanto mais formos capazes de relacionar nossos sentimentos às nossas próprias necessidades, mais fácil será para o outro reagir compassivamente e atender nossas solicitações.


Faça distinção entre doar de coração e ser motivado pela culpa


O mecanismo básico de motivação pela culpa é atribuir o que sentimos às atitudes de outra pessoa.


Quando os pais falam: “Estamos tristes porque você não fez o dever de casa.”, estão deixando implícito que as atitudes da criança são responsáveis pela infelicidade dos pais e isso não é verdade. Ser responsável pelos sentimentos dos outros pode ser confundido com preocupação positiva, altruísmo ou empatia. Entretanto, crianças que assumem esse tipo de responsabilidade mudam de comportamento conforme os desejos dos pais. Não fazem a tarefa com propósito e isso acaba por não se sustentar. O desgaste à longo prazo é imenso e isso vale para todos os tipos de relações e não somente entre pais e filhos.


Nesse caso, podemos nos conscientizar de nosso próprio sentimento ao usar: “Sinto-me assim porque eu…”


Exemplo:


“Mamãe e papai se sentem tristes quando você não faz o dever de casa porque queremos que você não precise passar as férias de recuperação.”


“Sinto-me muito enfurecido quando aparecem erros de ortografia nesse memorando porque eu realmente quero que todos na empresa recebam bem essa mensagem.”


“Sinto-me zangada por você não ter cumprido sua promessa porque eu contava com sua ajuda para poder descansar nesse final de semana.”


Saber dizer com clareza o que sentimos e o que queremos pode parecer difícil, principalmente para as mulheres, que são ensinadas socialmente a ignorar as suas necessidades para cuidar dos outros e assim, reafirmam dia após dia que suas necessidades não importam, simplesmente por não saber como se fazer ser ouvida de maneira compassiva.


O que pedimos


Quando nossas necessidades não estão sendo atendidas, após expressarmos o que estamos observando, sentindo e precisando, agora chegou a hora de aprender como fazer um pedido específico. Como podemos expressar nossos pedidos de modo que os outros se sintam mais dispostos a realizá-los?


Em primeiro lugar, devemos expressar o que queremos, e não o que não queremos. E confie em mim, na maioria das vezes ditamos o que não queremos! Além de provocar resistência, solicitações negativas deixam as pessoas confusas quanto ao que realmente está sendo pedido.


Se você já fez algum pedido assim, já fez uma solicitação negativa: “Não quero que você fique tanto tempo no computador”, “não quero que vá para chuva”, “você não vai na pelada hoje, não é?”.


Além de usarmos uma linguagem positiva em nossas solicitações, devemos evitar frases abstratas, vagas ou ambíguas. Fazer pedidos de maneira clara e concreta simplifica, em muito, o entendimento com o nosso interlocutor.


Vamos supor que você precise trabalhar ou estudar, e no seu ambiente as pessoas estão falando alto e vendo televisão ao mesmo tempo. Você, enfurecido, descarrega: “Como é que alguém consegue se concentrar com esse barulho todo?” Foi um desabafo, de certa forma, mas isso é um pedido ou uma pergunta? Se o que você realmente deseja é que as pessoas façam silêncio para que você consiga se concentrar, mantenha a clareza e seja o mais direto possível.


Pedidos versus exigências


Do mesmo modo, solicitações não acompanhadas de sentimentos e necessidades do solicitante podem soar como exigências e exigências costumam afastar as pessoas. Quando uma pessoa ouve de nós uma exigência, ela vê duas opções: submeter-se ou rebelar-se. Nenhuma das duas gera conexão verdadeira.


Geralmente, solicitações em forma de perguntas inquisidoras afastam as pessoas e geram mais conflito. “Por que você não vai cortar esse cabelo?” Duvido muito que essa solicitação seja atendida sem gerar mal-estar, a menos que os pais se lembrem de antes revelar seus próprios sentimentos e necessidades. Uma maneira de ser ouvido e gerar conexão seria: “Estou preocupada, pois seu cabelo está ficando muito grande e começando a atrapalhar sua visão. Já pensou em cortá-lo?”


Também devemos ficar atentos a não usar críticas e julgamentos ao pedir, principalmente se o pedido não foi atendido.


Quanto mais tivermos culpado, punido ou acusado os outros quando não atenderam nossas solicitações, maior a probabilidade de que nossos pedidos sejam agora interpretados como exigências.


Vejamos duas variações da mesma situação. Pedro diz para a namorada: “Estou me sentindo só e queria que você ficasse em casa comigo hoje.” Isso é um pedido ou uma exigência? Depende de como a namorada vai responder e como João irá reagir. Suponha que ela responda: “Hoje eu tenho um compromisso e preciso sair, vamos combinar outro dia?” Então Pedro rebate: “Você só pensa em você, nunca tem tempo pra mim!”. A solicitação, portanto, foi uma exigência.


Mas a situação pode transcorrer de outra forma. Pedro pode ser compassivo às necessidades da namorada e se expressar de outra forma: “Entendo que você estará ocupada hoje. Que tal marcarmos outro dia? Estou me sentindo só e realmente gosto muito da sua companhia.”


Oferecer nossa empatia às pessoas quando elas não atendem ao nosso pedido é a maneira mais genuína de se fazer uma solicitação. Porém, isso não significa que devemos desistir sempre que alguém nos disser não; significa que não tentaremos convencer a pessoa antes de oferecer nossa compreensão e empatia às necessidades dela também.


Essa foi uma breve introdução de como a comunicação não violenta pode nos ajudar a sermos compassivos com os outros, mas principalmente, com nós mesmos. Sermos fiéis aos nossos sentimentos e nossas necessidades e, desse modo, aprendermos a respeitar os sentimentos e necessidades do próximo é a base da comunicação não violenta.


 


O objetivo da comunicação não violenta não é mudar as pessoas e seu comportamento para conseguir o que queremos, mas sim, estabelecer relacionamentos baseados em honestidade e empatia, que acabarão atendendo às necessidades de todos.

MARSHAL ROSENBERG



 



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