• Fabiola Aurich

Onde mora a resiliência

Na Física, resiliência é a capacidade que alguns materiais possuem de voltar ao seu estado normal, após terem sido submetidos a uma deformação elástica. Falando mais difícil, resiliência é a propriedade de alguns materiais de acumular energia quando submetidos a algum tipo de pressão ou choque sem, no entanto, sofrerem qualquer ruptura.


Por exemplo, se tentarmos dobrar um pedaço de graveto, chega uma hora em que ele irá quebrar; porém, se fizermos o mesmo com um pedaço de bambu, ele vai envergar, mas não vai quebrar. Então podemos dizer que o bambu possui mais resiliência que o graveto.


Pegando carona na Física, outras áreas de conhecimento usam o termo resiliência em suas definições, como na administração, ecologia e na psicologia. Nosso foco aqui é falar sobre resiliência do ponto de vista do comportamento humano, ou seja, o que a Psicologia e a Neurobiologia têm a nos ensinar sobre resiliência.


Resiliência e comportamento


Na área da psicologia, diz-se que uma pessoa é resiliente quando possui a capacidade de enfrentar e superar situações difíceis e adversas. É a capacidade de "dar a volta por cima".


Sabemos que algumas pessoas são mais resilientes do que outras, mas o que leva essa diferença? Por que, sob o mesmo agente estressor, algumas pessoas se descontrolam e desenvolvem algum distúrbio emocional, enquanto outras se recuperam mais facilmente? O que podemos fazer para melhorar nossa capacidade de resiliência?


Pesquisadores da Universidade de Harvard mapearam o que seria a “rota da resiliência” no cérebro. Em um artigo publicado em 2019, na revista Biological Psychiatry, eles avaliaram 151 crianças de 8 a 17 anos, 72 delas com histórico de abuso e maus-tratos. As crianças foram colocadas em um aparelho de ressonância magnética funcional enquanto realizavam tarefas de reavaliação cognitiva (falo disso daqui a pouco). O objetivo desse estudo foi avaliar os circuitos neurais envolvidos em todo esse processo e o resultado foi bem interessante.


Os danos do abuso infantil





É sabido que crianças com histórico de abuso possuem uma maior predisposição a desenvolver problemas psicológicos, como ansiedade e depressão. Porém, essa predisposição não é determinante e muitas crianças que passaram por várias formas de adversidade na infância acabam por demonstrar resiliência e se tornam jovens e adultos saudáveis. Essas crianças mais resilientes possuem uma capacidade aumentada de recrutar os circuitos neurais pré-frontais e modular a reatividade da amígdala.


Acontece mais ou menos assim: quando passamos por situações de stress, é acionada uma região do nosso cérebro chamada amígdala, que faz parte do nosso sistema límbico. A amígdala é a responsável pela nossa resposta rápida a situações de risco, tipo lutar, fugir ou paralisar. Ela envia sinais de alerta ao restante do corpo, que vai reagir involuntariamente ao agente agressor. Desse modo, ao passar por uma situação de stress, que pode vir a ser desde uma barata voadora ao olhar de um pai violento e abusador, a amígdala será ativada e irá desencadear uma série de circuitos para que o corpo se proteja e reaja a essa agressão: aumentam os batimentos cardíacos, os vasos sanguíneos se estreitam e a pele empalidece, ou se dilatam e ficamos vermelhos, a boca fica seca, os músculos se contraem, uma descarga de hormônios são liberados na corrente sanguínea, o sistema imunológico diminui sua função. Isso tudo sem que você tome consciência de que está acontecendo.


É o nosso córtex pré-frontal, em especial a região frontoparietal do córtex, que ajuda a modular a amígdala. Nosso córtex pré-frontal, a região mais superior e anterior do cérebro, é responsável pelo raciocínio, pela cognição, por analisar o que acontece conosco. Em outras palavras, ele tem o poder de “acalmar” a amígdala.







Acontece que, quando essas situações de stress são muito frequentes, a amígdala pode se tornar hiper-reativa e aquelas reações corporais que eu mencionei acima podem acontecer com muito mais frequência e por estímulos cada vez menores, por vezes até inconscientes. É o que chamamos de “pavio curto”. Além disso, a capacidade de recrutamento do córtex pré-frontal para “acalmar” a amígdala fica prejudicada. É como se a comunicação entre essas regiões ficasse interrompida. É assim que se desenvolvem vários transtornos como ansiedade, stress pós-traumático, depressão e bipolaridade.


A reavaliação cognitiva


Vários estudos sugerem que a capacidade de recrutar esses circuitos pré-frontais para modular a resposta da amígdala pode ser um mecanismo neurobiológico importante na adaptação de crianças que sofreram abuso, contribuindo para a regulação emocional dessas crianças e diminuindo o risco de distúrbios psicológicos no futuro.


Uma das maneiras de se estimular o recrutamento desses circuitos é por meio da reavaliação cognitiva, técnica que foi utilizada no estudo de Harvard e que consiste em avaliar a situação de outras maneiras. Em outras palavras, “ver o lado bom” ou ressignificar. Ela é um componente da terapia cognitivo-comportamental e vem sendo amplamente estudada nos últimos anos.


No estudo em questão, as crianças avaliadas foram colocadas em um aparelho de ressonância magnética funcional e mostraram a elas uma imagem triste, por exemplo a de uma criança chorando. Foi perguntado a elas como elas se sentiam vendo a imagem e o exame de ressonância detectou uma atividade da amígdala aumentada. Depois de um tempo, foi feita a reavaliação cognitiva, pedindo, por exemplo, para a criança imaginar que era tudo um filme, ou uma encenação, ou imaginar a criança chorando cada vez mais longe e pequenininha. Foi detectado um aumento na atividade do córtex pré-frontal e ao perguntar o que elas estavam sentindo, as crianças não demonstraram emoções negativas.


O estudo propôs que este padrão de recrutamento dessa região do córtex seria um marcador biológico para a resiliência. Sendo assim, crianças que sofreram abuso teriam menor risco de sofrer sintomas de ansiedade e depressão caso apresentassem:

1) Melhor modulação da resposta da amígdala aos estímulos negativos ao usar a reavaliação cognitiva;

2) Melhor recrutamento das regiões pré-frontais;

3) Maior tendência a utilizar as técnicas de reavaliação cognitiva no dia a dia.


Da ciência para a vida


A ciência comprova o que cansamos de ouvir de coaches e gurus de PNL: o pensamento muda tudo. Inclusive, as técnicas de reavaliação cognitiva são bastante utilizadas na PNL. Mas veja bem, não se trata de virar uma Poliana e achar bom todo tipo de desgraça que acontece. Isso tem nome: positividade tóxica. Se trata de aprender a analisar os fatos sob outras perspectivas, diminuindo o impacto negativo da situação sob o cérebro.


Conseguimos treinar resiliência em nossos filhos ao permitir que, ao passar por situações adversas, eles aprendam a recrutar as regiões pré-frontais e a analisar melhor a situação. Como as crianças ainda não possuem essa região do cérebro totalmente desenvolvida, é importante que um adulto as ajude nessa tarefa. Conversar com a criança quando ela estiver calma, perguntar como ela se sente, dar nome aos sentimentos para que ela saiba o que está acontecendo com ela, saber ouvir e explicar os fatos de maneira com que ela encontre novas maneiras de lidar com a situação.


Eu sei, isso é difícil até para nós. Muitos pais e mães já estão com suas amígdalas hiper-reativas há tempos. Excesso de estímulos, cobrança, perdas, medo... Sendo assim, como ajudar sua criança a desenvolver a resiliência dela se o próprio córtex pré-frontal não está cumprindo seu papel direito?


Sugiro autoconhecimento. Agora que você tem uma noção do que acontece com o nosso cérebro e os circuitos neurais necessários para adquirir resiliência e evitar o surgimento de transtornos mentais, que tal começar a perceber o que acontece aí dentro, utilizar a reavaliação cognitiva com mais frequência na sua vida e, quem sabe, pedir ajuda a um terapeuta?


Faço jus a Tolstoi que escreveu, no início de Ana Karenina: “Todas as famílias felizes são parecidas umas com as outras, cada família infeliz é infeliz à sua maneira.” Só desejo que saibamos olhar para a infelicidade de maneira a não perpetuar - e aumentar - sentimentos e atitudes ruins.




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