• Fabiola Aurich

Sono e aprendizagem

Dia desses eu estava vagando no YouTube, quando me deparei com um vídeo: “Aprenda inglês dormindo – Técnica comprovada cientificamente.” Eu, curiosa, fui espiar. Afinal, será mesmo que dá para conciliar sono e aprendizagem e aprender um idioma enquanto dormimos? Se isso é comprovado, podemos dormir ouvindo um eBook de finanças e dentro de algum tempo virarmos exímios investidores? Fui lá descobrir.


O artigo citado em alguns desses vídeos é uma publicação bem interessante de dois cientistas de Universidade de Zurich, que avaliaram a memorização de palavras em holandês durante o sono e em vigília (acordado). Eles avaliaram um total de 64 pessoas, todas com alemão como língua mãe e sem conhecimento em holandês, com idade média de 25 anos.


Primeiramente, os participantes foram solicitados a memorizar 120 palavras em holandês e suas respectivas traduções. Depois foram divididos em 4 grupos experimentais: um grupo que dormiu sem ouvir nada, um grupo que dormiu ouvindo as palavras em holandês, um grupo que fez caminhada ativa ouvindo o áudio em holandês e outro que fez caminhada passiva também ouvindo o áudio. Honestamente, não consegui entender muito bem como foram realizadas essas caminhadas, mas isso não é relevante aqui (embora fiquei pensando nisso por dias!).


Adivinha qual o grupo que se recordou mais das palavras e suas traduções? Sim, aquele que dormiu ouvindo o áudio em holandês. Tiveram uma melhora na retenção de memória de 5% em relação ao grupo dorminhoco que não escutou nada. Veja bem, é importante frisar aqui que nenhum dos participantes aprendeu uma língua nova enquanto dormia. Na verdade, eles aprenderam enquanto estavam acordados e foi durante o sono que acreditam que esse aprendizado foi consolidado. Importante também dizer que esse sono teve duração de 3 horas. Somente e apenas 3 horas.


O que diz a ciência


O interesse dos cientistas sobre aprendizagem durante o sono não é nada recente. O nome dado a isso é hipnopedia ou sleep learning - tentativa de transmitir informações para uma pessoa adormecida, geralmente através de uma gravação de som. Os estudos mais antigos datam de 1914 e não vou te dar uma boa notícia: até então, não há comprovação consistente de que conseguimos aprender algo novo enquanto dormimos.


O livro: The Rough Guide to the Brain: Get to Know your Grey Matter (O Guia Básico do Cérebro: Conheça sua Matéria Cinzenta) mostra um estudo que parece desmentir a ideia de que podemos aprender dormindo. Eles reuniram 2 grupos de voluntários para ouvir pares de palavras com alguma conexão, como animal/cachorro, comida/feijão, metal/ouro, e assim por diante. Um grupo escutou essas palavras dormindo, outro acordado. Depois foram solicitados a criar pares de palavras dentro da mesma lógica das palavras que tinham escutado anteriormente. O grupo que ficou acordado acertou o dobro das palavras que tinham escutado previamente, em relação ao grupo que escutou dormindo. E tem mais: os pesquisadores ainda compararam o grupo que escutou as palavras dormindo com um grupo que dormiu sem escutar nada. Os dois grupos tiveram o mesmo desempenho ruim. Ou seja, trate de estudar é acordado!


Na verdade, não existe evidência científica que comprove que realmente há aprendizado durante o sono e os estudos que foram bem conduzidos mostram que as poucas coisas que foram lembradas no dia seguinte foram ouvidas quando as pessoas acordaram brevemente durante a noite.


De fato, o sono é um estado amnésico. Não lembramos da maioria dos nossos sonhos e quando lembramos, geralmente é o sonho que temos pouco antes de acordarmos.


Para que serve o sono?




E qual é a função do sono? Será que ele ajuda mesmo nossa memória e contribui de alguma forma para o aprendizado? Parece que sim, mas não da maneira como é vendida nos cursos de YouTube.


É mais do que sabido que a privação prolongada de sono pode levar a sérios problemas fisiológicos e comportamentais. O sono é, sem dúvida, restaurador. Mas ainda não se sabe ao certo se existe algo específico em nosso corpo que seja restaurado pelo sono, ou alguma substância restauradora produzida, ou uma toxina que seja destruída enquanto dormimos. A maioria das evidências indica que o sono não é um momento de reparação do corpo, porém, é possível que algumas regiões do cérebro, como o córtex, possam alcançar um estado de repouso durante o sono não REM (o sono REM é quando nós sonhamos) que é essencial para uma vigília adequada. Em outras palavras, precisamos desse repouso cortical bem feito para que nosso dia seja bom.


O sono também pode ser uma adaptação para conservarmos energia. Enquanto dormimos, o corpo trabalha apenas o suficiente para nossa sobrevivência. A temperatura corporal diminui e o gasto calórico é mantido bem baixo. Tudo descansa!


Com relação ao aprendizado e memória, muitos pesquisadores têm sugerido que o sono REM, e talvez, os nossos sonhos, tenham um importante papel na memória. Para tristeza de Freud, a bizarrice de nossos sonhos é devido, segundo teorias atuais, a associações e memórias do córtex cerebral, causadas por descargas aleatórias da ponte durante o sono REM. Assim, os neurônios da ponte, via tálamo, ativam várias áreas do córtex, evocam imagens, memórias e emoções conhecidas. O córtex tenta dar sentido a essas descargas aleatórias, o que poderia, em parte, explicar biologicamente o que acontece quando sonhamos.



Anatomia dos sonhos
Anatomia do sonho

Muitos dos estudos que associam sono REM com aprendizado mostraram que ratos ou seres humanos privados de sono REM tiveram dificuldade aumentada no aprendizado de várias tarefas. Alguns estudos mostram um aumento na duração do sono REM naquelas pessoas que tiveram uma intensa experiência de aprendizado, o que indica a importância dessa fase do sono para aprendermos melhor.


Como vimos, uma boa noite de sono é fundamental para que tenhamos um dia produtivo. Nossos sonhos podem ter um papel importante na consolidação do que aprendemos durante o dia. Portanto, ficar acordado até tarde estudando pode não ser uma escolha sábia, do ponto de vista neurobiológico, se desejamos aprender ou lembrar de algo. Sei que a moda agora é “hackear” tudo que se vê pela frente e encurtar caminhos parece bem tentador, mas respeitar nossa fisiologia e acreditar em uma ciência bem conduzida é, sem dúvida, a melhor opção para que o aprendizado ocorra.


Resumindo, tenha uma boa noite se sono para ter um ótimo dia de aprendizado.



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